PEDACINHOS DA HISTÓRIA GOIANA (n. 86)


O ASSASSINO GANHOU INOCÊNCIA,
MAS O INTELECTUAL FOI REVERENCIADO


Antônio Americano do Brasil foi médico, escritor, jornalista, professor, secretário do governo estadual e chegou a representar o Estado de Goiás na Câmara dos Deputados. Um intelectual respeitado que ganhou do pai um nome carregado de simbolismo e estudou no prestigiado Colégio Pedro II, na cidade do Rio de Janeiro, capital da República à época.

Era gago, mas o pai o treinou para que falasse "alto, compassado e rápido". Deu certo. Tornou-se um grande orador:


O treino foi tão intenso que essa característica o acompanhou por toda vida, fazendo com que se destacasse em sua vida parlamentar (...) e como professor. (Cida Sanches)


Havia passado a sua infância em Bonfim (atual Silvânia), mas em 1927, poucos anos depois de encerrado o seu mandato de deputado federal, decidiu morar em Santa Luzia (atual Luziânia). Ali comprou um sítio, fundou uma Escola Normal e passou a trabalhar como professor, médico e advogado.

Eis que, em 1932, Americano do Brasil morreu tragicamente, assassinado por um desafeto. O assassino chamava-se Aldovandro Gonçalves e havia sido acusado de desvirginar uma moça. Ele negava a acusação e temia que Americano do Brasil fosse chamado a fazer, como perito, um exame de virgindade na jovem. Imaginava que o médico se aproveitaria dessa oportunidade para incriminá-lo. O exame nem seria realizado, segundo disse o promotor de justiça ao próprio Aldovandro. Mesmo assim, o sujeito continuava a suspeitar das intenções do médico e intelectual que era seu inimigo. Assim, dirigiu-se transtornado ao sítio de Americano e, chegando lá, assassinou-o com cinco tiros. Dizia-se em Santa Luzia que os dois eram apaixonados por uma mesma moça, chamada Nila, e por isso rivalizavam ferrenhamente.

Aldovandro Gonçalves ficou preso menos de um ano e, em seu julgamento, foi absolvido.

O assassino ganhou inocência, mas Americano do Brasil foi reverenciado. Recebeu diversas homenagens nas décadas seguintes e atualmente há, no Estado de Goiás, até uma pequena cidade com o seu nome.


Antônio Americano do Brasil (1892-1932)
Patrono da cadeira 33 do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG)


SAIBA MAIS:
O covarde assassinato de Americano do Brasil
Cida Sanches (Academia de Letras, Arte e História de Silvânia)
Revista do IHGG, n. 31 (2020) . Link: Revista

23.02.2022

PEDACINHOS DA HISTÓRIA GOIANA (n. 85)


OS CATÓLICOS GOIANOS SOB O PODER DOS BISPOS DO
MARANHÃO, DO RIO DE JANEIRO E DE PERNAMBUCO


Em 1745, foi criada a prelazia de Goiás pela bula papal Candor Lucis Aeternae, do Papa Bento XIV. Prelazia é uma circunscrição católica que não tem o mesmo prestígio de uma diocese, mas possui atribuições similares.

A criação da prelazia foi importante para demonstrar o interesse e a preocupação do Papa com os católicos goianos, mas apenas em 1782 foi nomeado o primeiro prelado de Goiás, que sequer tomou posse. O segundo também não tomou e apenas o terceiro nomeado se interessou, mas tomou posse por procuração e nunca viajou a Goiás. Assim, a prelazia existia de direito, mas permaneceu inativa por décadas e as paróquias goianas continuaram subordinadas a outras dioceses.

Uma parte das paróquias de Goiás se subordinava à diocese do Maranhão. Outra, à diocese do Rio de Janeiro. Vila Boa, a sede do governo colonial goiano, tinha 8.000 habitantes em 1783 e obedecia ao bispo do Rio de Janeiro. Já Natividade, mais ao norte, era um arraial com 6.000 habitantes e estava subordinada ao bispo do Maranhão.

E ainda havia o interessante caso do arraial dos Couros (atual Formosa), que tinha uma igreja subordinada à diocese de Pernambuco. Veio a independência do Brasil, passou o Primeiro Reinado, o período regencial e apenas em 1843, já no Segundo Reinado, o Parlamento imperial mudou a situação da paróquia da Imaculada Conceição, em Formosa. Decidiu separá-la do bispado de Pernambuco e a pôs sob o poder da diocese de Goiás (que antes era prelazia inativa e, em 1826, subiu de status por decisão do Papa Leão XII).

A transformação da prelazia de Goiás em diocese se deu pela bula papal Sollicita Catholici Gregis Cura (1826), do Papa Leão XII. A partir dessa bula, o catolicismo goiano começou a se afastar das dioceses de fora de Goiás e passou a ter seu líder próprio.


Leão XII, o Papa que transformou
a prelazia de Goiás em diocese.


SAIBA MAIS:
Onde estavam as freguesias goianas até 1783 ?
Vinicius Sodré Maluly
Link: Artigo

16.02.2022

PEDACINHOS DA HISTÓRIA GOIANA (n. 84)


UMA CAMPANHA PARA MELHORAR
A IMAGEM DE GOIÂNIA EM 1987


Uma das consequências do acidente radioativo de césio 137 em Goiânia, no ano de 1987, foi o temor de que tudo e todos com origem na capital goiana pudessem estar contaminados e, além disso, pudessem espalhar radiação. Esse foi um temor que surgiu fora de Goiânia, mas até na própria cidade houve algo parecido. Quando a menina Leide das Neves, vítima da contaminação por césio 137, foi sepultada no Cemitério Parque, de Goiânia, seu caixão foi apedrejado por pessoas que não aceitavam aquele enterro ali. Achavam que o solo podia ser contaminado.

Fora de Goiânia, falou-se até na possibilidade de que produtos goianos, como o arroz, estivessem contaminados. Portanto, era melhor não comprá-lo. Saber disso era péssimo para a autoestima dos habitantes de Goiás, é claro.

Goiânia reagiu. Houve um esforço da cidade para recuperar a sua imagem e desfazer a ideia de que seus produtos e seus habitantes eram um perigo para a saúde alheia. No Estádio Olímpico, onde parte da população goianiense passou por triagem para medir os níveis de radiação, os técnicos da CNEN (Comissão Nacional de Energia Nuclear) disputaram uma partida de futebol. O objetivo era mostrar que não havia qualquer perigo ao transitar por aquela região da cidade.

A campanha pela reabilitação da cidade de Goiânia teve o seu auge com o vídeo e a música Eu amo Goiânia, produzidos pela TBC. A letra da música, curtíssima, foi composta pelo conhecido artista Moacyr Franco e o vídeo foi transmitido em outros Estados do país. Esses eram os versos da canção:

Eu amo Goiânia
Goiânia me ama
Eu amo Goiânia
E você?

Eu amo Goiânia
Goiânia que encanta
Eu amo Goiânia
E você?


Em 1987, técnicos da CNEN tinham a frase
Eu amo Goiânia estampada em suas vestes de trabalho.


SAIBA MAIS:
Acidente radiológico em Goiânia: um estudo de caso sobre o vídeo institucional da campanha "Eu amo Goiânia"
Carolina Carreiro Alvim (FEMA)

09.02.2022

PEDACINHOS DA HISTÓRIA GOIANA (n. 83)


A PONTE QUE FOI INAUGURADA COM A PRESENÇA DE 2.000 PESSOAS,
MAS SEM MUITO INTERESSE DO GOVERNO


Ao longo de todo o século XIX, comerciantes goianos reclamaram do seu isolamento econômico. Diziam que era preciso conectar Goiás com o litoral. Assim, haveria fluxo comercial e prosperidade. Uma dessas conexões se faria entre Santa Rita do Paranaíba (hoje, Itumbiara) e a região do Triângulo Mineiro, com uma ponte sobre o rio Paranaíba. A ponte facilitaria o trânsito até o litoral paulista e fluminense. Essa tornou-se uma reivindicação constante daquela região.

A ponte não foi construída no século XIX. Mas no início do século XX, o presidente Afonso Pena deu o apoio necessário para a obra. Foi convencido por personalidades influentes da região de Morrinhos, que haviam sido seus colegas na Faculdade de Direito de São Paulo. A construção começou em 1908.

No ano seguinte, houve a Revolução de 1909, que derrubou o governo estadual. Nem essa grave crise política impediu que a obra chegasse ao fim.

O que mudou foi a inauguração: planejava-se um evento muito prestigiado pelo governo recém-deposto, mas se reduziu a uma solenidade de pouco interesse para as novas autoridades, que não estavam animadas para festejar a obra iniciada por seus adversários. Mesmo assim, a inauguração reuniu uma massa popular com cerca de 2.000 pessoas e contou com bandas de música, salva de tiros, discursos, benção católica e brindes de cerveja.

A ponte Afonso Pena é a ponte pênsil em funcionamento mais antiga do Brasil e foi tombada pelo IPHAN em 2012, tornando-se patrimônio histórico e cultural do país.


A ponte Afonso Pena teve todo o
seu material importado da Alemanha.


SAIBA MAIS:
Diário de Itumbiara . Link

02.02.2022

PEDACINHOS DA HISTÓRIA GOIANA (n. 82)


O SANTO QUE DETESTAVA ARMAS
FOI MILITAR EM GOIÁS


No século XVIII, o governador colonial da capitania de Goiás, Marcos de Noronha e Brito (o Conde dos Arcos), solicitou ao Conselho Ultramarino do Reino de Portugal que Santo Antônio fosse feito soldado das tropas sob o seu comando. Isso mesmo: Santo Antônio, o doutor eclesiástico canonizado em 1232.

O Conselho atendeu à solicitação.

Não era uma inovação goiana. Já acontecia desde séculos anteriores em Portugal e outros locais. Santo Antônio também foi militar na Bahia, Pernambuco, Paraíba, Rio de Janeiro, Espírito Santo, São Paulo e outras capitanias. Em Angola também. Na capitania de São Paulo, chegou à patente de coronel.

Assim, o santo foi considerado um militar atuante em Goiás e fez jus ao merecido soldo. Mas como pagar o soldo a um santo? Quem passou a receber esse pagamento e a administrar os recursos foi o tesoureiro da Irmandade do Sacramento, que estava vinculada à igreja matriz de Sant'Anna, em Vila Boa.

O soldo foi pago pelo governo até o fim do período colonial. E continuou sendo pago mesmo depois da independência do Brasil. Apenas com a proclamação da República (1889), que separou o Estado e a Igreja Católica, o pagamento foi interrompido. Mas não foi uma interrupção imediata. Até 1907 ainda havia, no Brasil, pagamentos sendo efetuados ao santo nascido em Portugal.

O irônico é que Santo Antônio detestava armas. Preferia a palavra e a persuasão.


Santo Antônio de espada em punho.
(Imagem publicada pela BBC News Brasil)


SAIBA MAIS:
Santo Antônio: há 790 anos, morria o frade português (BBC News Brasil): LINK

26.01.2022

PEDACINHOS DA HISTÓRIA GOIANA (n. 81)


GETÚLIO VARGAS FOI ATÉ A ILHA DO BANANAL
E RECEBEU ACOLHIDA ANIMADA DOS INDÍGENAS


Em 1940, Getúlio Vargas visitou Goiás. Foi o primeiro Presidente do Brasil a visitar o Estado. Era um acontecimento tão importante que o dia da chegada do presidente merecia ser feriado estadual. Assim achava o interventor Pedro Ludovico Teixeira, que decretou o feriado. No próprio texto do decreto, Ludovico declarou que aquela visita enchia de orgulho o povo goiano.

A visita foi animada e o presidente se fez presente em vários compromissos. Houve uma manifestação cívica com a participação de trabalhadores, esportistas e estudantes. Getúlio gostou e agradeceu. Mas no Automóvel Clube, onde houve um baile em sua homenagem, só entraram "autoridades e elementos destacados da sociedade de Goiânia", segundo o Jornal do Brasil. Na entrada desse baile, algumas moças jogavam flores sobre a cabeça do presidente Vargas. Era uma reverência quase imperial.

Getúlio ouviu de tudo. Ouviu reclamações de um pecuarista que queria condições de empréstimo idênticas às de Minas Gerais, mas ouviu também o agradecimento de um idoso que se orgulhava de ter agora, em seu Estado, "uma capital moderna, bonita e grandiosa" (Jornal do Brasil, 06.08.1940). E três dias depois de chegar a Goiás, foi de avião à Ilha do Bananal (que ainda era território goiano naquela época).

O avião pousou em uma região povoada por indígenas e o presidente foi recebido com entusiasmo:

(...) quando todos esses habitantes [indígenas] sentiram que aquele homem sorridente que saltava do avião era o Presidente Getúlio Vargas, irromperam em palmas e gritos ensurdecedores. A recepção dos selvagens foi a mais acolhedora e carinhosa possível. (Jornal do Brasil, 09.08.1940)

Os carajás e javaés da Ilha do Bananal pediram ao presidente que assistisse ao ritual da dança sagrada aruanã e a uma demonstração de luta corporal indígena. Getúlio assistiu e ficou muito impressionado. Depois, almoçou sem maiores luxos, em "uma mesa improvisada com pranchas de madeira e sentado em um tosco banco" (Jornal do Brasil, 10.08.1940).

O presidente ficou seis dias em Goiás.


Chegada de Getúlio Vargas ao Palácio das Esmeraldas em 5 de agosto de 1940.
(Foto: autor desconhecido. Acervo MIS-GO)


Getúlio Vargas e Pedro Ludovico Teixeira no Palácio das Esmeraldas (05.08.1940)
(Foto: Antônio Pereira da Silva. Acervo MIS-GO)


SAIBA MAIS:
O diálogo "forte" entre um fazendeiro goiano e o presidente Getúlio Vargas
Hélio Rocha (Jornal Opção)
Link: Artigo

19.01.2022

PEDACINHOS DA HISTÓRIA GOIANA (n. 80)


UM ESCRAVO AOS PRANTOS ABRAÇADO
AO CAIXÃO DE FÉLIX DE BULHÕES


Félix de Bulhões foi o maior abolicionista de Goiás. Desenvolveu intensa atividade em defesa da libertação dos escravos e ganhou até o apelido de Castro Alves goiano. Faleceu em 1887. Suicidou-se. Não viu a escravidão abolida. A Lei Áurea seria assinada pela Princesa Isabel apenas no ano seguinte.

O seu sepultamento foi acompanhado por quase todos os abolicionistas da capital goiana. A cena marcante daquele dia foi a de um escravo, chamado Luiz, que se jogou sobre o caixão, abraçou-o e lamentou, aos prantos, a morte do principal líder abolicionista da província. "Este escravo foi alforriado logo após o enterro por Filipe Batista e a loja maçônica libertou sua mulher Maria" (Maria Augusta de Santana Moraes, 1973).

Em seguida, todas as sociedades abolicionistas goianas se uniram para fundar a Confederação Abolicionista Félix de Bulhões, que foi a maior entidade antiescravista de Goiás. Além disso, a Confederação adotou ideias que, avançando além da libertação dos escravos, defendiam o seu direito a uma cidadania completa:

O abolicionismo não se limita a libertar o trabalhador escravo da tirania senhorial, vai além, quer emancipa-lo ao domínio da ignorância e dos preconceitos, em que a escravidão o lançou; o abolicionismo procura converter o escravo em operário, e o operário em cidadão. (1887)


Em março de 1888, quando o falecimento de Félix de Bulhões completou um ano, o movimento abolicionista alforriou os últimos escravos da cidade de Goiás. Algumas semanas depois, foi sancionada a lei que declarava ilegal e extinta a escravidão no Brasil.


Félix de Bulhões, poeta engajado, abolicionista militante e
intelectual de ideias intensas, se suicidou aos 41 anos de idade.



Félix de Bulhões ajudou a fundar alguns jornais.
O Goyaz, que existe até hoje, foi um deles.


SAIBA MAIS:
O abolicionismo em Goiás
Maria Augusta de Santana Moraes

13.01.2022

PEDACINHOS DA HISTÓRIA GOIANA (n. 79)


2022: TRICENTENÁRIO DO INÍCIO DA
EXPEDIÇÃO DO SEGUNDO ANHANGUERA


No século XVIII, Bartolomeu Bueno da Silva quis repetir a expedição de seu pai, que tinha o mesmo nome. E repetiu.

A primeira expedição, do pai, se iniciou em 1682. Era mais uma bandeira paulista a explorar o sertão. Passou pelo Brasil Central, entrou em contato com povos indígenas, mas se desfez sem deixar qualquer núcleo populacional no interior do Brasil. O Bartolomeu pai, nessa jornada, ganhou dos indígenas o apelido de Anhanguera (Diabo Velho). O Bartolomeu filho dizia se lembrar daquela aventura, que ele havia vivido quando era um menino com cerca de dez anos de idade.

A segunda expedição, do filho, teve início em 1722. Essa teve impacto mais duradouro. Deu origem ao arraial de Sant'Anna (atual cidade de Goiás) e à colonização portuguesa numa área próxima ao rio Vermelho. Depois, esse impulso colonizatório se espalhou para outros locais. Primeiro, eram as chamadas minas dos guayazes ou dos goyazes. Depois, surgiu a denominação Goyaz e a região se tornou cada vez mais uma área colonial portuguesa, transformada em capitania com governo próprio, por decisão do rei de Portugal, em 1744. O seu primeiro governador colonial assumiu o cargo em 1748.

O apelido Anhanguera passou do pai para o filho. E tornou-se símbolo da história goiana.

Um relato, do alferes José Peixoto da Silva Braga, diz que 3 de julho de 1722 foi a data de partida da expedição do segundo Bartolomeu (ou do segundo Anhanguera). Data de notável peso simbólico para a história de Goiás e que chega ao seu tricentenário nesse ano de 2022.


Anhanguera, para os indígenas, era um demônio velho que colocava fogo
nas águas e ameaçava fazer o mesmo com os rios. A artimanha, comum en-
tre os bandeirantes, era pôr fogo em uma bacia com aguardente. A imagem é
de autoria de Theodoro José da Silva Braga. Foi pintada no início do século XX.


SAIBA MAIS:
Relato do alferes José Peixoto da Silva Braga.  >  Link

06.01.2022

PEDACINHOS DA HISTÓRIA GOIANA (n. 78)


LÁZARO BARBOSA: DE FAXINEIRO A SENADOR


Nas eleições de 1974, o MDB (Movimento Democrático Brasileiro) lançou em Goiás a candidatura ao Senado de Lázaro Barbosa. Mas parecia muito difícil vencer o candidato adversário, da ARENA (Aliança Renovadora Nacional).

Lázaro Barbosa (filho de lavradores, ex-engraxate, ex-faxineiro e ex-porteiro de hotel) já havia se candidatado, em 1966, a deputado estadual. Não conseguiu se eleger. Em 1970, tentou se candidatar a senador, mas tinha apenas 32 anos de idade e o mínimo exigido era 35. Sua experiência eleitoral, então, era pouco encorajadora.

Já o candidato da ARENA, Manoel dos Reis, se mostrava mais forte: havia sido prefeito de Goiânia de julho de 1970 a abril de 1974 e contava com o apoio do governo estadual.

A disputa entre o candidato que era ex-prefeito de capital e o candidato que ainda não havia exercido nenhum mandato parecia ter resultado certo. Irapuã Costa Júnior, recém-eleito governador de Goiás (em eleição indireta) declarou que o candidato da ARENA (seu partido) seria vitorioso naquela eleição "com mais ou menos 80 mil votos de diferença".

O eleitorado goiano surpreendeu. Lázaro venceu a eleição com mais de 100.000 votos de diferença. O ex-faxineiro de Orizona ajudou o MDB a alcançar uma grande vitória nacional: o partido elegeu 16 senadores em todo o país, enquanto a ARENA elegeu apenas seis. Foi a primeira vitória da oposição a abalar realmente os alicerces do Regime Militar.

Lázaro Barbosa não conseguiu se reeleger senador em 1982, mas continuou atuando politicamente e em 1990 foi eleito deputado federal. Em 1992, foi nomeado Ministro da Agricultura pelo presidente Itamar Franco. Ficou um ano à frente do Ministério. Depois, encerrou seu mandato de deputado federal e não se candidatou mais.

Faleceu em 2019.


Lázaro Ferreira Barbosa (1938-2019)
Foto publicada na Wikipedia.


SAIBA MAIS:
Resumo biográfico de Lázaro Barbosa. LINK

29.12.2021

PEDACINHOS DA HISTÓRIA GOIANA (n. 77)


A PRIMEIRA PARTIDA DO FUTEBOL GOIANO
NO CAMPEONATO NACIONAL


A primeira partida de um time goiano no Campeonato Brasileiro de futebol foi realizada em julho de 1963. O time era o Vila Nova, campeão goiano de 1962. E a competição ainda não se chamava Campeonato Brasileiro. O nome, na época, era Taça Brasil.

A competição foi criada pela Confederação Brasileira de Desportos (CBD) para pôr em disputa os campeões estaduais do país que já tivessem adotado o profissionalismo. Começou a ser realizada em 1959, mas apenas em 1963 o futebol goiano teve um representante inscrito. A estreia do Vila Nova, em 21 de julho, foi contra o campeão de Brasília: o Defelê, que ainda nem havia se profissionalizado (mas foi admitido, excepcionalmente, na competição).

Vila Nova e Defelê se enfrentaram no Estádio Vasco Viana de Andrade, conhecido como Estádio da Metropolitana, localizado no Núcleo Bandeirante (Distrito Federal). O local passou por obras apressadas para poder receber a partida. Foi erguida uma arquibancada, montado um alambrado, melhorados os vestiários e plantada a grama do campo. O estádio funciona até hoje.

Na partida, a equipe goianiense foi melhor e se impôs. Venceu por 2 a 0. O futebol de Brasília, segundo o jornal Correio Braziliense, era "quase embrionário" e o Defelê não tinha condições de resistir a um clube como o Vila Nova, já profissional e de maior maturidade.

Artur marcou o primeiro gol, ainda no primeiro tempo. E assim entrou para a história esportiva goiana. O segundo gol foi marcado por um atacante de apelido interessante: "Sete Léguas".

Uma semana depois, Vila Nova e Defelê voltaram a se enfrentar. Dessa vez, no Estádio Pedro Ludovico (Goiânia). O Vila Nova venceu por 3 a 0 e se classificou à fase seguinte.

Depois de superar o Defelê, o Vila Nova disputou três partidas contra o Rio Branco, do Espírito Santo. Venceu uma (em Goiânia), perdeu duas (na capital do Espírito Santo) e foi desclassificado.

Três vitórias em cinco partidas e 12º lugar na classificação final. Parece pouco? Pois saiba que o Vila Nova disputou a primeira divisão nacional mais oito vezes e aquele 12ª lugar de 1963 permanece sendo o melhor desempenho do clube até hoje.


Artur e Sete Léguas, os autores dos dois primeiros
gols goianos na história do Campeonato Brasileiro.
Imagens: Futebol de Goyaz - www.futeboldegoyaz.com.br


SAIBA MAIS:
Taça Brasil (1959 - 1968): Link

22.12.2021

PEDACINHOS DA HISTÓRIA GOIANA (n. 76)


O BAZAR OIÓ E A
TRABALHADORA QUE LIA LIVROS DE PÉ


"Bazar Oió" era o nome de uma livraria que ganhou o status de pólo cultural da intelectualidade de Goiânia. Foi fundado em 1951 por dois irmãos cujos nomes começavam com a letra "o" (Olavo e Othelo Tormim) e essa é a razão do inusitado nome "oió". Othelo, depois, se afastou da livraria. Olavo resolveu mantê-la como proprietário único.

Ali eram realizados diversos eventos: lançamento de livros, exposições artísticas e debates sobre vários assuntos. Havia também um jornal, publicado mensalmente, de nome "Jornal Oió".

Grandes nomes passaram pelo local: Pablo Neruda, Cora Coralina, Bernardo Elis e Jorge Amado, entre outros.

A livraria permitia a livre leitura das obras à venda. Em uma tese de doutorado da Unicamp, da pesquisadora Orlinda Melo, está registrado o tocante relato de uma trabalhadora doméstica, chamada Sebastiana, que costumava ir ao Bazar Oió para ler livros de pé:

(...) eles deixavam um livro de cada lançamento sobre uma mesa. Quem quisesse podia ler esses livros lá. Eu "futricava" e lia outros da prateleira. Lia em pé, diante da prateleira, não gostava de conversar para não perder tempo, porque eu tinha que pegar meus filhos na escola. Nem sentia as dores nas pernas. Nem sentia fome.

Cheio de intelectuais e permitindo a livre leitura dos livros à venda, o Bazar Oió ganhou a desconfiança e a antipatia do Regime Militar. Pressionado pela censura, Olavo Tormin foi preso em 1969. Passou 63 dias encarcerado. Daí em diante, o número de clientes caiu e Olavo desanimou. O Bazar Oió foi fechado em 1974.


Jornal Oió anuncia que o prefeito de Goiânia sancionou, no
próprio Bazar Oió, uma lei de apoio à literatura. (1957)


O Bazar Oió lotado. Foto publicada no blog gelbcunb.blogspot.com.


SAIBA MAIS:
Bazar Oió e sua marca na história cultural de Goiânia
Lúcia Tormin Mollo
Link:  Artigo

15.12.2021

PEDACINHOS DA HISTÓRIA GOIANA (n. 75)


NEVE EM GOIÁS?  O GOVERNADOR
MENEZES DISSE QUE VIU EM 1778


O governador colonial Luís da Cunha Menezes registrou por escrito a sua viagem pelo território goiano em 1778. Alguns locais por onde ele passou já tinham nomes que se mantêm até hoje, como Mestre d'Armas, Pipiripau e Sobradinho, localizados em uma região que é atualmente o Distrito Federal.

Mestre d'Armas foi o primeiro nome de Planaltina e é uma denominação conhecida por seus moradores. Pipirapau também fica em Planaltina e é o nome de um rio e de um núcleo rural. Sobradinho é o nome de uma região administrativa do Distrito Federal.

Em seu diário de vagem, o governador Menezes destacou que, após passar por Sobradinho, chegou a uma localidade chamada São João das Três Barras e registrou o quanto era frio o inverno ali: "chega a cair neve".

Neve no Planalto Central? Talvez um exagero do governador. Ou um equívoco. Ocorrem, no Distrito Federal, fortes geadas e chuvas de granizo, como uma em 1964, que acumulou gelo na Esplanada dos Ministérios. Mas não há nenhum registro de neve além desse de 1778.

São João das Três Barras não deu origem a uma região urbana. Tornou-se uma área de proteção ambiental e hoje é chamada de Chapada da Contagem.


Granizo na Esplanada dos Ministérios em 1964.
(Foto publicada no site www.curtamais.com.br)


Chapada da Contagem
(antiga São João das Três Barras)
Aqui caía neve, segundo o governador Menezes.


SAIBA MAIS:
A Estrada Real dos Goiases no DF: Link

08.12.2021

PEDACINHOS DA HISTÓRIA GOIANA (n. 74)


DOM EDUARDO: ERA BISPO DE GOIÁS,
MAS PASTOREAVA EM UBERABA
 

Depois da proclamação da República, em 1889, o bispo de Goiás, Dom Eduardo Duarte e Silva, se viu em má situação. Sentia-se perseguido por parte dos militares e pela família Bulhões, que se tornou a mais poderosa da política goiana. Em 1896, resolveu tomar uma atitude drástica: mudou-se para Uberaba, que pertencia a Minas Gerais, mas estava submetida à diocese de Goiás.

O prédio do seminário católico na cidade de Goiás havia sido requisitado para a instalação de um hospital militar. Dom Eduardo reagiu e argumentou que já havia uma determinação legal do próprio regime republicano proibindo o confisco de bens eclesiásticos. A requisição, mesmo assim, foi mantida. Para o bispo, tratava-se de mais um ato de perseguição dos homens mais poderosos do Estado. Considerou intolerável e, sem hesitar, partiu para o Triângulo Mineiro.

Durante anos, o bispo de Goiás residiu e desenvolveu sua ação pastoral em Minas Gerais, o que incomodava (e entristecia) os católicos goianos. Foi assim de 1896 a 1908.

Em 1907, foi criada a diocese de Uberaba e Dom Eduardo tornou-se o seu primeiro bispo. Para substituí-lo na diocese de Goiás, foi escolhido Dom Prudêncio Gomes da Silva, que chegou à cidade de Goiás em setembro de 1908. A capital goiana, enfim, voltava a ter o seu bispo residindo na própria cidade. A recepção e as comemorações foram cheias de pompa e contentamento:

O Presidente com seus secretários de governo, o clero secular e regular, os magistrados, os militares superiores e inferiores, organizações religiosas, os colegiais festivamente uniformizados, o povo em peso, com vivas e cânticos, dísticos de saudações, três bandas de música, enfim a cidade inteira se punha aos pés de Dom Prudêncio. (José Trindade da Fonseca e Silva)

Dom Prudêncio foi bispo de Goiás até 1921.


Dom Eduardo Duarte e Silva.
Bispo de Goiás de 1891 a 1907
e Bispo de Uberaba de 1907 a 1923.


SAIBA MAIS:
Dom Eduardo Duarte e Silva: Link

01.12.2021

PEDACINHOS DA HISTÓRIA GOIANA (n. 73)


A CIDADE GOIANA SEM NENHUM ELEITOR


Em 1881, foi aprovada a chamada Lei Saraiva, que reformou o sistema eleitoral do Império do Brasil. Uma das novidades era o voto direto. Estava extinto o sistema em que primeiro os chamados "votantes" escolhiam os eleitores e depois os eleitores votavam nos candidatos a deputados e senadores. Existiria apenas o voto dos eleitores (que era o chamado "voto direto") e tornou-se necessário, então, fazer um novo alistamento eleitoral em cada província, determinando quem teria direito a votar de acordo com a nova lei. Em Goiás, esse alistamento foi iniciado por Joaquim de Almeida Leite Morais, presidente da província de fevereiro a dezembro daquele ano de 1881.

O presidente se dizia um defensor convicto do novo sistema e se orgulhava por ter conseguido implantá-lo na província com quase nenhuma reclamação dos dois grandes partidos políticos da época: o Conservador e o Liberal.

Mas houve fatos que chamaram a atenção. O mais esquisito deles deu-se em Porto Imperial, que era uma cidade importante do norte goiano. Não houve um único eleitor alistado ali. Para o presidente Leite Morais, tratava-se ou de um "plano político, ou indiferença profunda pelas coisas públicas". Talvez uma "condenação da reforma [Lei Saraiva] pelo silêncio e pela abstenção". Já em Natividade, que fazia parte da mesma comarca eleitoral, o alistamento foi feito sem problemas.

Goiás foi dividido em dois distritos eleitorais. O primeiro tinha 1.506 eleitores e a cidade de Goiás como cabeça do distrito. O segundo contava com 1.373 eleitores e a vila de Cavalcante era a cabeça do distrito. Ao todo, apenas 2.879 goianos tinham direito a voto. A população livre de Goiás era de mais de 150.000 pessoas.





Imagens: Relatório do presidente da província
de Goiás, com número de eleitores (1881)


SAIBA MAIS:

25.11.2021

PEDACINHOS DA HISTÓRIA GOIANA (n. 72)


PILAR: DAS ÓPERAS ÀS
CASAS DESMORONADAS


O arraial de Nossa Senhora do Pilar foi uma localidade goiana que prosperou muito no período da mineração.

Diziam-se maravilhas daquele lugar.

Quando o governador colonial de Goiás passou por ali, em 1773, foi recebido com festa e até óperas, apresentadas "em teatro público, com excelentes figuras, com muito luzimento", como ficou registrado na ocasião.

O historiador Zoroastro Artiaga comentou que, nas ruas do arraial, liteiras "cheias de damasco e cetim lustroso" eram carregadas por escravos vestidos com "jalecos vermelhos e cintas de cores vivas". Dentro dessas liteiras, iam "senhoras e senhoritas filhas de fidalgos e novos ricos". Nas igrejas, admiravam-se os artefatos de ouro e os "ricos desenhos" que decoravam as paredes.

Mas com a decadência da mineração nas últimas décadas do século XVIII, Pilar murchou.

O viajante europeu Johan Emanuel Pohl passou por lá em 1819 e anotou: "as casas, na maioria, estão abandonadas e parcialmente desmoronadas". E mais:

A mineração está hoje inteiramente abandonada. A falta de escravos transformou os habitantes dessa região em mendigos.

De óperas a casas desmoronadas. De fidalgos a mendigos. Foi assim na transição do Goiás minerador para o Goiás do gado e dos tropeiros no século XIX.

Mas Pilar existe até hoje. Atualmente, seu nome oficial é Pilar de Goiás.


Em Pilar, se diz que a principal igreja do município
já teve os maiores sinos de Goiás, com 900 quilos.


SAIBA MAIS:
A fronteira da mineração em Goiás: história ambiental e os recursos naturais do Cerrado a partir da exploração do ouro em Pilar de Goiás
Maria de Fátima Fernandes, Cassiano de Brito Rocha e Sandro Dutra e Silva
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18.11.2021